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Papai - Textos


SOLTE A PANELA

Certa vez, um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento.

A época era de escassez, porém, seu faro aguçado sentiu o cheiro de comida e o conduziu a um acampamento de caçadores.

Ao chegar lá, o urso, percebendo que o acampamento estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou um panelão de comida.

Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo.

Enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo.

Na verdade, era o calor da tina...

Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava.

O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida.

Começou a urrar muito alto. e, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra seu imenso corpo.
Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o seu corpo e mais alto ainda rugia.

Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida.

O urso tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela e, seu imenso corpo, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

Quando terminei de ouvir esta história de um mestre, percebi que, em nossa vida, por muitas vezes, abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes.

Algumas delas nos fazem gemer de dor, nos queimam por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgamos importantes.

Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento, de desespero. Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que protegemos, acreditamos e defendemos.

Para que tudo dê certo em sua vida, é necessário reconhecer, em certos momentos, que nem sempre o que parece salvação vai lhe dar condições de prosseguir.

Tenha a coragem e a visão que o urso não teve, solte a panela...

(autor desconhecido)
22/06/09
 

O VALOR DE UM PAI :          O papel do homem na consolidação de valores dos filhos.


Embora a Psicanálise seja acusada de atribuir somente à mãe os problemas e sintomas que os filhos desenvolvem, na verdade o papel do pai sempre foi considerado central na constituição do sujeito e a sua presença indispensável para o desenvolvimento saudável da criança.

A paternidade tem merecido constante investigação, quer quando se faz presente como função paterna exercida adequadamente, quer quando é deficiente ou mesmo ausente, trazendo consequências nefastas aos filhos e ao grupo familiar. Tanto quanto a mãe é a matriz, a origem psicobiológica e o primeiro objeto de amor e cuidado, indispensável nesse processo e seu papel é fundamental na instalação dos limites e da capacidade de simbolização do infans, impusionando a criança para o mundo, para crescer e deprender-se da mãe, para evoluir em outros espaços externos.

O pai é assim, o operador simbólico de alteridade e do limite, rompendo a relação exclusiva com a mãe, ao instalar a lei da proibição do incesto, propiciando o desenvolvimento e a autonomia do filho.

A sociedade atual é pródiga em excessos, consumo exagerado de bebidas, drogas, objetos eletrônicos, sexo, festas nas quais “é proibido proibir”, carros cada vez mais velozes, enfim, ritmos e sons alucinantes, como se somente por meio desse exagero o sujeito pudesse existir e marcar sua presença, para obter aprovação e prazer. O que a Psicanálise nos demonstrou é que tudo o que é imposto e excessivo está para além do príncipio do prazer, ou seja, inscreve-se no gozo que é pulsão demorte e leva o desprazer. Por outro lado, no trabalho clínico, convivemos com distintas formas de manifestações psicopatológicas, ditas novas patologias, que predominam na emergência do terceiro milênio. Citam-se distúrbios alimentares como anorexia e bulimia, as adições a drogas de diferentes tipos, cada vez mais potentes e determinantes de dependência física e psíquica.  Também nas doenças psicossomáticas, nas quais o corpo responde ao excesso de angústia diretamente fazendo lesões orgânicas predominam o instinto de morte.

Ainda como manifestações do excesso ligado ao corpo, verificamos, em muitos pacientes, distintamente de preocupação saudável de cuidar-se para manter a qualidade de vida, a necessidade imperiosa de manter a juventude por meio de procedimentos cirúrgicos repetidos, que tentam desmentir a passagem do tempo e o envelhecimento. Todo exagero focado no corpo visa preencher um vazio existencial, típico da condição narcisita do sujeito pós-moderno, alienado de seu próprio desejo e de seu próprio sentir, obrigado a adaptar-se ao Outro ou às regras da sociedade de consumo. As condições alienantes denunciam que padecemos da falta de limite, da ausência de alguém que diga NÃO, que imponha ordem, que diga: até aqui podemos – além daqui não podemos, sob pena de cavarmos nossa própria destruição ou abolição da subjetividade. Outro fenômeno assustador do mundo atual é o acréscimo de incidência de pedofilia, um tipo de perversão que diariamente ocupa os meios de comunicação de diversos países, disseminada por várias redes, na internet.  A anulação paterna é um dos fatores determinantes para desencadear a pedofilia. Um pedófilo é o sujeito que ficou detido no narcisismo da infância e precisa de parceiros infantis para se identificar.

O pai é o operador simbólico da alteridade e do limite, rompendo a relação exclusiva com a mãe. A instalação do pai simbólico vai coincidir com a repressão da sexualidade, em prol do desenvolvimento da cultura.

Na menina ou no menino, o primeiro objeto de amor é a mãe, mas enquanto o menino já nasce vinculado ao objeto heterossexual, é obrigado a abandoná-la, porque verifica a presença do pai e o teme e também pelo amor ao pai, identifica-se com ele. Na menina, há todo um movimento mais complexo: pela fantasia de não ser completa, por se sentir em desvantagem, abandona o vínculo ressentida com a mãe e volta-se para o pai, na busca de alguém que a complete. Destacamos a importância da aprovação do pai à menina, de valorização de seu sexo, para que ela possa construir uma identidade de gênero adequada, isto é, identificar-se com a mãe, com os atributos da feminilidade  para poder desejar construir, no futuro, um vínculo com parceiro, escolhido à semelhança do pai.

A função paterna é, desse modo, indispensável para a resolução dessas etapas do conflito, o que Freud chamou de Complexo de Édipo, triangulação que determinará a identidade de gênero em ambos os sexos. A interdição, que é básica na estruturação edípica, indica, não só a circulação do desejo entre pais e filhos, mas, principalmente, que o objeto sexual deve ser procurado fora do ambiente familiar.

É na medida em que a mãe se afasta que a criança começa a simbolizar, até para poder chamá-la. Nas idas e vindas da mãe, surge a capacidade simbólica e a linguagem, elaborando a falta da mãe. A lei da interdição com os elementos de parentesco, exercida pela função paterna, deve ser internalizada, inscrevendo a alteridade, a díferença e a identidade sexual, ao mesmo tempo em que forma o laço social e a cultura. O valor conceitual do mito freudiano foi o de demonstrar a importância do pai como função determinante da passagem do homem da natureza à cultura.

Na sociedade pós-moderna, há cada vez menos o papel do pai como limitador, criando assim indivíduos que fogem do controle. O pai agressivo e violento pode causar tantos danos ao filho quanto o pai omisso, porque em ambos os casos há falta da função paterna que é dar limite, mas também dar amor e cuidado. Enquanto o pai violento atemoriza demais, o pai omisso passa para a criança a sensação de abandono e rejeição.

Contudo, a função paterna não depende do genitor, a noção de pai instala-se como um operador simbólico, independente do pai encarnado, ou seja, a função paterna pode ser exercida pelo governo, pelo juiz, ao determinar a lei, nas famílias nas quais o pai está ausente.

Por outro lado, é comum estar o pai fisicamente presente na família, mas impossibilitado ou sem interesse em exercer a função paterna. Assim, todo o poder é exercido pela mulher, na condição de “fálica’, que se considera “dona dos filhos”, desvalorizando o homem e afastando-o da prole. Nas condições em que há rejeição inconsciente do significante paterno, diferentes patologias de maior ou menor gravidade podem ocorrer, desde os quadros psicóticos, distúrbios bordeline, caracteropatias e perversões.

No mundo atual globalizado, reformulam-se as referências familiares e sociais, de modo a abolir a autoridade e eliminar as diferenças. O decréscimo da função paterna é fenômeno inquestionável em nossos dias. A cultura pós-moderna rejeita o que não é semelhante. Nas famílias, crianças tantam dominar seus pais e estes não conseguem colocar-lhes limites. Nas escolas, professores são agredidos por seus alunos, que contestam as normas disciplinares, não raro apoiado pelos pais. Há um favorecimento da violência e a rivalidade sem limite, ao tentar apagar as diferenças impositivamente.

É o descrédito na ética do limite, advinda da função paterna, a falência absoluta do Estado, que deveriam ocupar esse lugar da lei efetiva na proteção de cidadãos favorecendo uma sociedade doente, órfã de valores importantes para a construção de um indivíduo saudável, pleno e feliz.

Por: Laura Ward da Rosa. Revista Psique, pág. 57. Ano V